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A menina de Stanford 2

Eu havia prometido a mim mesma e aos amigos que iria escrever sobre minhas experiências durante minha estadia no Vale do Silício, mas muito aconteceu e minha promessa virou lenda. Aterrissei no Brasil há 20 dias e aqui está um apurado de como foi a viagem e minhas percepções.

Para contextualizar a todos, cheguei em São Francisco no dia 26 de setembro de 2012 e fiquei por um período de 2 meses. O propósito dessa viagem foi, em primeiro lugar aprofundar meus conhecimentos sobre “Validação de Modelos de Negócios” através de um curso de extensão na universidade de Stanford com base nos princípios da metodologia “Customer Development”, desenvolvida por Steve Blank. E em segundo lugar – e para mim tão importante quanto o primeiro – foi viver a experiência “The Silicon Valley Magic” (como diz meu amigo Felipe Matos).

No Brasil, muito se fala sobre o Vale do Silício, e muito nos inspira, mas como é viver e respirar desse ar? Essa é a parte intangível que procurei trazer comigo na bagagem de volta para casa.

 

Universidade de Stanford

Stanford Tower

Em um blogpost do Steve Blank em que ele fala sobre os lugares a serem visitados no Vale do Silício, ele descreve Stanford como “The Brains of Silicon Valley” (O Cérebro do Vale do Silício). E de fato, o lugar faz jus ao que ele denomina. Eu não segui uma carreira acadêmica por diversos fatores que aconteceram em minha vida, ainda assim me encanta a grandiosidade do impacto que a pesquisa pode causar.

Em Stanford existe uma paixão misturada com orgulho e determinação, sem descrição, e que está estampada em cada estudante que você conversa. Cada universidade tem o seu forte e Stanford é universalmente reconhecida pela sua paixão pelo empreendedorismo e suas atividades são focadas no empowering entrepreneurship. No processo de seleção para MBA – que é super criterioso – dentro muitas coisas que eles avaliam, umas das mais importantes perguntas é: “What matter the most to you and why?” O interesse deles é capturar pessoas que serão os próximos líderes do mundo. E isso só é possível com pessoas que tenham aquele perfil insaciável do empreendedor. Entre os alunos, soa estranho quando alguém compartilha que gostaria de seguir uma carreira corporativa. Questionam: “O que você está fazendo aqui?!”. O resultado de você colocar várias pessoas com este perfil numa mesma “panela”, cria-se um ambiente onde tudo é possível. Um simples projeto de faculdade não é só para tirar nota, é para mudar o mundo e dentro de cenários reais com direito a mentor e investidor. Os recursos que a universidade e o Vale do Silício juntos podem oferecer são simplesmente os melhores possíveis de se alcançar. E como não se sentir empoderado com isso?

 

O curso

Finding product and market fit

Aprendi e conheci ferramentas e exercícios importantes para mim, que quero levar a sério a facilitação de processos de inovação para criação de modelos de negócios. Mas no mundo em que vivemos hoje conseguiria aprender sobre o tema em um blog ou vídeo aula do Udacity, por exemplo. Porém, a riqueza de fazer um curso em Stanford não é curso em si. Eu diria que o curso é o bônus. Além de ter sido o meio que usei para aprender muito mais sobre inovação, empreendedorismo e Vale do Silício. O programa teve duração de 6 semanas, com aulas todas às quartas-feiras, diversas tarefas, livros para ler e me proporcionou passar o dia na biblioteca da Graduate School of Business, estudando o tema, vivendo uma vida de aluno de Stanford e conhecendo outros estudantes, seja na biblioteca, nos cafés, ou nas aulas.

 

Hospedagem – Palo Alto

Rosi Rodrigues, Felix Rodriguez, and Lena Walper in Palo Alto downtown

Se o objetivo é respirar Stanford – que foi o meu caso – não hesite em ficar em outro lugar que não seja Palo Alto, mas prepare o cartão de crédito. A cidade é simplesmente a mais cara e mais charmosa de toda Bay Area – não é exagero quando me refiro que é a mais cara. Isso é fato. Palo Alto é a quinta cidade mais cara dos EUA. Quanto a mais charmosa, essa é minha mera opinião. No mesmo blogpost do Steve Blank que citei a pouco, ele aponta Palo Alto como primeiro “Coração Pulsante” do VS, depois vem Mountain View, cidade vizinha onde está instalado o Google. A cidade é morada dos venture capitalists e founders celebridades. Nos cafés da University Avenue você nunca sabe com quem cruzará. Umas das mais importantes lojas da Apple fica nesta avenida, uma espécie de show room e que recentemente abriram uma nova loja com total novo design.

Eu fiquei hospedada em um apartamento que achei no Airbnb, a minha hospedagem foi esplêndida. O host da casa era um candidato independente à presidência dos EUA. Aprendi muito sobre as eleições americanas. Na casa tinha duas bikes – meio de transporte padrão na cidade – e eu usava uma delas para todo canto, inclusive para pedalar em São Francisco. Compras de supermercado são uma facada! Todos os mercados da cidade são orgânicos. Os californianos, em geral, são adeptos ao estilo de vida saudável – e caro. Quando eu queria fazer uma compra maior, pegava o onibus e ia até o hipermarcado Walmart, de Mountain View.

 

São Francisco

Rosi Rodrigues at the San Francisco Golden Bridge

Eu viveria em São Francisco fácil! Uma cidade pequena, mas com muitas atrações. O transporte de entre Palo Alto e SF leva cerca de 1 hora de trem – toda Bay Area é conectada através do Caltrain System. As startups, quando grandes, a maioria mudam para SF porque lá é onde mora a massa.

Assim que cheguei no VS dediquei a minha primeira semana só para turismo. Estava naquele gás total. Fui visitar todos os lugares possíveis: fazer compras no Market District, jantar nos restaurantes legais, nos parques, bebi e dancei no October Fest do pier 48 e de quebra fui no Bluegrass Festival – um evento de jazz e folk no meio do Golden Gate Park que lembra a era de paz e amor dos hippies do anos 60. Na casa onde fiquei eu tinha três roomates (dois rapazes Desenvolvedores que trabalhavam em startups e uma garota da Alemanha que estava fazendo doutorado em Stanford) que me acompanharam nas aventuras. Foi a melhor coisa que fiz, porque depois começaram as tarefas do curso e os eventos e networking, daí acabou meu tempo.

 

Networking

Brazilians visiting Evernote HQ

Por falta de tempo no Brasil eu não fiz nenhuma agenda, mas três dias antes da viagem disparei e-mails para alguns bons amigos e pedi que me apresentassem alguns contatos. Foi aí que conheci a Isadora Kimura, uma brasileira com background no empreendedorismo social e que mora em SF – a meca do Impact Investing.

Na segunda semana os contatos começaram a dar frutos, e daí uma pessoa me conectou com outra e iniciou-se minha jornada. Uma coisa muito interessante que percebi – e que depois em um almoço com a Bel Pesce ela também me confirmou – é que as pessoas do VS estão sempre abertas para conhecer outras e principalmente dispostas a ajudar. O lema da comunidade do VS é criar, manter e expandir a teia de conexões. É o espirito de ver a comunidade crescer através dos empreendedores de sucesso apoiando e mentoring os empreendedores mais novos. No Brasil existe o mal da celebridade, é só se tornar um founder de sucesso e sair na capa da PEGN que acabou o tempo ou a dedicação para fazer sua comunidade crescer. Umas das maiores lições que levo dessa viagem é nunca deixar um café ou convite para trás. Somos seres humanos, e às vezes a caixinha em que vivemos nos faz “estereotipar” ou “subestimar” alguém ou um evento. Nessa viagem senti isso na pele, pois diferente do Brasil, no VS não há glamour no empreendedorismo. Qualquer um é capaz de ser um empreendedor e fazer grandes coisas, e também de estar conectado com as pessoas mais brilhantes da região. Um simples café, com uma simples pessoa pode te levar para um jantar na casa do “Sheik do Vale do Silício”- se é que ele existe. Levo para casa este grande aprendizado.

 

Cultura Startup

 Rosi Rodrigues googling at Google Campus

Nessa jornada visitei o headquarter de empresas como o Facebook, Evernote, Zendesk, Plug and Play, e Google, além de conhecer pessoas de diversas startups em seus diversos estágios. Junto com a Isadora Kimura, organizamos alguns grupos de brasileiros para visitar essas empresas e ver de perto como a coisa funciona. A cultura organizacional deles tem como pilar o encaixe dos valores e ideais em primeiro plano. A estrutura organizacional é top down. Ou seja, a identidade é quem aproxima seus colaboradores. E algumas vezes isso implica em colocar em segundo plano as habilidades técnicas dos seus colaboradores. Isso se dá, pelo fato da vida de uma startup e seus processos serem exaustivos e que muitas vezes excedem a “vida do escritório”.

A cultura organizacional de uma startup está ligada diretamente com as atitudes da nova geração Milênio, onde trabalho, diversão e significado caminham juntos.

 

Eventos

At Facebook Hackathon

Os eventos pipocam! Eu dormi muito pouco e ainda assim, não explorei um quinto dos eventos que estavam acontecendo durante a minha temporada. Aqui vão algumas dicas para encontrar os eventos legais.

Fique de olho no Meetup.com, StartupDigest Silicon Valley e Eventbrite. Para os eventos de brasileiros, veja o pessoal do BayBrazil e fique de olho no que a Bel Pesce e o Amit Garg estão aprontando no Brasileiros no Vale. Agora, se quiser uma experiência do tipo “casa, comida e roupa lavada” procure o pessoal da Silicon House, que oferece um programa de 4 semanas de hospedagem e conexões no Vale do Silício.

 

Conclusão

Rosi Rodrigues googling at Google

A Vale do Silício é um lugar especial, não só pela beleza, mas pelas pessoas que cultivam esse mind-set, que não há em nenhum outro lugar do mundo e que se propaga conforme o passar dos anos e dos resultados colhidos. O mais incrível é notar o senso de comprometimento das pessoas com relação às suas ideias. Um simples encontro pode facilmente gerar um brainstorm session e se tornar uma startup. De sucesso? Ainda não sabemos. Mas é interessante ver que as pessoas tem um senso de valor muito alto pelo seu tempo. Diferente do Brasil, onde comumente pensamos que quando não estamos nos pagando algo sai de graça. Tempo é dinheiro. Nós do Brasil estamos muito longe dessa realidade. Ver isso de perto é como receber um banho de inovação. Passar uma temporada no Vale do Silício é como receber uma dose na veia para nos ajudar e nos inspirar a criar o nosso próprio ecossistema empreendedor. Se depender de mim tenho energia e entusiasmo para contaminar muita gente!

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